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Opinião

terça | 29/11/2011 06:00:00

Um olhar sobre o hospital psiquiátrico - parte II

| Angelita Zamberlan Nedel | Psicóloga - CRP 12/07591 - Membro da Ceres (Associação Criciumense de Apoio à Saúde Mental)

Na primeira parte deste artigo, publicada na semana passada, vimos que os hospitais, em sua origem, não tinham finalidade terapêutica; funcionavam, sim, como "hospedaria". O hospital psiquiátrico visava, desta forma, o isolamento de sua clientela e o controle social. Ao longo da história, surgiu a necessidade de reabilitar aquela massa improdutiva. Com a terapeutização dos hospitais, passou-se, então, a buscar a adaptação do doente ao grupo (e não o contrário).
"Que outras tantas vidas há para além dos diagnósticos apresentados em prontuários, para as classificações que reduzem singularidades ao reiterável?" - assim nos questiona Zanella, no prefácio do livro "Vidas do Fora - Habitantes do Silêncio" (2010); e, com esta mesma expressão, são definidas essas vidas: vidas do fora, remetendo-se ao texto de Antunes - "A vida fora da autografia/ A vida fora da biografia/ A vida fora da caligrafia/ A vida fora da discografia/ A vida fora da etnografia/ A vida fora da fotografia/ A vida fora da geografia (...)."
Enquanto o discurso oficial diz, taxativo, "incurável", devemos ver e entender outras milhares de possibilidades de existência... Vidas fugidias que, observadas por olhares desatentos, poderiam ser descritas como só querendo comida e cigarro. Mas Antunes já dizia: "a gente não quer só comida, a gente quer saída para qualquer parte (...) a gente quer inteiro e não pela metade".
Encontramos muitas contradições quando nos enveredamos pela temática da loucura. Existem pesquisadores que buscam promover estas outras formas de existência, e se dão muito bem com as palavras, mas, quando se trata de lidar com a loucura, de forma concreta e cotidiana, revela-se a dificuldade e a incoerência do discurso. Ou ainda, pessoas que pedem para ser internadas como forma de conter sua loucura. Será que, no hospital psiquiátrico, estando entre "iguais", elas se sentem gente?
Tantos anos depois de sua invenção, será que ele ainda serve ao mesmo fim? Por que, até mesmo os trabalhadores em saúde mental, por vezes, se esquecem de que a pessoa com sofrimento psíquico é, antes de tudo, uma pessoa? Por que os funcionários do hospital psiquiátrico têm dificuldade de compreender que aquele é também um hospital, que deve oferecer cuidado e tratamento às pessoas internadas? Parece que estas reflexões devem ser feitas constantemente.
Após dez anos da Lei da Reforma Psiquiátrica, nº 10.216, os hospitais psiquiátricos se mantêm imponentes, ou, nem tanto assim, mas muitos funcionando com sua lotação máxima. Não há como fechar os olhos a este fato. Não adianta levantarmos bandeiras de fechamento já (isso já se fez e não se conseguiu o fim dos manicômios).
Temos que pensar, sim, em garantir qualidade no tratamento e na atenção à crise e, ao mesmo tempo, pensar em outras formas de garantir a alteridade, a manifestação/expressão de diferentes formas de existência. Em tempos de inclusão, será que não está na hora de adaptarmos o nosso pensamento à realidade, às singularidades do humano? Ou continuaremos com nosso pensamento excludente, fazendo com que os outros se adaptem à nossa forma de pensar? Parafraseando Marina Colassanti, ‘eu sei que a gente se acostuma a pensar do mesmo jeito, mas não deveria’.