Opinião
Um olhar sobre o hospital psiquiátrico I
| Angelita Zamberlan Nedel | Psicóloga - CRP 12/07591 Membro da Ceres (Associação Criciumense de Apoio à Saúde Mental)
"Toda comunidade é feita de interrupções, fragmentações e suspense, é feita de seres singulares e de seus encontros." (Peter Pál Pelbart)
Que comunidade é essa, que sociedade é essa, que cria e mantém um lugar, ou um não lugar, para quem, por vezes, não é visto nem enquanto humano? Como surgiu o hospital psiquiátrico?
Na Idade Média, com o enfoque da religiosidade, do teocentrismo, o que subvertesse a ordem natural de Deus era considerado loucura. Utilizaram-se, então, da Inquisição, com a caça às bruxas, e da Nau dos Loucos, como forma de "descartar" e rechaçar os loucos pobres, para "banir" a loucura.
Durante o Renascimento, a loucura passou a ser vista enquanto desrazão; o louco, por sua vez, estaria inadaptado ao processo de urbanização. Em 1656, com a criação do primeiro Hospital Geral, em Paris, os loucos, lascivos, pedófilos, usurpadores, mendigos e todos os despossuídos foram "enclausurados". O hospital, neste momento, funcionava como "hospedaria", visando o isolamento de sua clientela e o controle social. Isso porque tudo o que ameaçasse a lei e a ordem social vigentes era retirado de circulação.
A partir da Revolução Francesa e da Revolução Industrial, o trabalho e a força produtiva passaram a ser centrais na sociedade, tornando-se necessário, assim, reabilitar a "massa popular inerte".
É no final do século XVIII, momento do Iluminismo, que ocorre a terapeutização dos hospitais, bem como a fundação da psiquiatria. Philippe Pinel, em 1793, capturou a loucura para o campo médico, dando à loucura o estatuto de doença mental; ao médico, caberia o lugar da verdade, do saber e do poder sobre o doente; e concebeu um lugar, o manicômio, para o estudo da doença. Era necessário separar o louco dos fatores causadores; o campo, com suas paisagens bucólicas, era priorizado. Pinel justificava o isolamento dos doentes mentais com o argumento de que era preciso estudar a doença ao natural.
No século XIX, com o advento do positivismo, a doença mental passou a ser vista como passível de tratamento, pois correspondia à paixão pervertida. Vigorava o tratamento moral, em que a paixão pervertida do louco podia ser corrigida pela influência da paixão reta do médico, pela disciplina e pelo trabalho, adaptando o doente à vida social. Desta forma, o tratamento visava também à adaptação do paciente ao grupo social.
Pode-se notar que os hospitais psiquiátricos que ainda restam estão localizados longe dos centros urbanos. Isto converge com a ideia de realizar uma "limpeza" nas cidades, retirando de circulação os que ameaçam a lei e a ordem social. E ainda hoje acabam "excluindo" o doente - isolando-o do que motivou/desencadeou seu transtorno.
Na próxima semana, continuarei escrevendo sobre a realidade atual da situação.






