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Opinião

quinta | 29/09/2011 06:00:00

Pessoa certa, tempo errado!

| Rosemiro A. Sefstrom | professor e filósofo clínico - sulcatarinense@engeplus.com.br

Em Filosofia Clínica, antes de entrar na análise dos pormenores dos dados da historicidade da pessoa, o filósofo observa os Exames das Categorias. Esta etapa é aquela na qual o terapeuta observa na narrativa da pessoa como ela se localiza existencialmente no mundo em que se coloca. A localização existencial é dada pela pessoa mesmo, ou seja, não é o filósofo que interpreta esses dados a partir da história, e sim, percebe literalmente segundo o que é contado pela pessoa. As categorias que ele observa são: assunto imediato e último, circunstância, lugar, tempo e relação. Em cada uma destas categorias se observa como a pessoa está existencialmente em cada etapa de sua vida.
É interessante o estudo destas categorias porque, algumas vezes, o problema que deverá ser trabalhado nada tem a ver com os tópicos da estrutura de pensamento. Em vários casos, o problema está na localização da pessoa, ou seja, onde ela se colocou existencialmente. Uma das categorias nas quais pode ocorrer problemas pode ser o tempo. Nesta categoria o filósofo se dedica a saber qual é a relação entre o tempo subjetivo e o tempo convencionado. Ele verá, segundo as vivências da pessoa, a duração dos eventos e o tempo verbal em que eles são vividos. O tempo subjetivo diz respeito ao rápido ou demorado que costumeiramente se diz. Como uma pessoa que afirma que, nos dias em que as coisas vão bem, ela sente como se o tempo passasse mais rápido, assim como o contrário. Só é possível que a pessoa diga que o tempo passou rápido se houver um parâmetro de comparação, e tal parâmetro é o tempo do relógio. Então, a relação entre o tempo convencionado do relógio e a sensação temporal da pessoa é que dão ao filósofo a possibilidade de dizer qual é a localização temporal das suas vivências.
Mesmo falando de um só tópico, apenas no parágrafo anterior, encontram-se teorias de nada mais nada menos que Aristóteles e Kant. Não se trata de uma cópia de suas categorias, mas sim, uma adaptação dos conceitos desenvolvidos pelos dois para o trabalho terapêutico. O tempo, como já conceituado anteriormente, é a categoria que cuida da relação entre o tempo objetivo e subjetivo.
No consultório, dia desses, um partilhante dizia que já era tempo de encontrar alguém na vida que lhe fosse "completar", em suas palavras: "alma gêmea". Depois de alguns meses de trabalho, a pessoa encontrou um par, segundo ela, perfeito. Conversa vai, conversa vem, e o que parecia perfeito acabou se revelando um problemão, pois a pessoa perfeita era 20 anos mais nova, o que tornava o relacionamento impossível. Não é que assim seja para o terapeuta ou para a sociedade, mas, segundo os valores da pessoa, era algum inimaginável, muito menos pra-ticável. Veio então a expressão: "Pessoa certa no tempo errado". Esta pessoa estava, agora, depois de se constituir na vida, no tempo de aproveitar, de abrir as asas e voar, mas precisava de alguém com quem compartilhar esse vôo. No entanto, da maneira que aconteceu, não seria a ela possível dar continuidade ao que poderia ser um relacionamento.
A temporalidade é diferente em cada pessoa, o tempo que cada um leva para ser "adulto" é diferente. Vários são os casos nos quais a pessoa é "obrigada" a amadurecer bem mais cedo e o tempo de suas vivências é alterado. Muitas vezes você cruzará com o seu par perfeito no tempo errado, mesmo sendo perfeito, ou é cedo demais ou é tarde demais. O ideal é estar aberto para as experiências, um amor pode vir cedo demais, mas pode vir uma vez só.