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Opinião

sábado | 20/08/2011 06:00:00

Os tigres no século 19?

| Alexandre Valdemar da Rosa | Graduado e Especialista em História (Unesc)

A ideia deste artigo não é tecer palavras sobre um grupo de felinos listrados, nem tão pouco falar dos emergentes países asiáticos ou até mesmo argumentar algo no tocante à maravilhosa torcida tricolor criciumense, mas, o foco do texto é outro. Confira!
Durante a primeira metade do século 19, nosso país ainda não dispunha de uma rede apropriada para esgoto, o que tornava as ruas brasileiras imundas, fazendo proliferar diferentes tipos de doenças. Sarampo, varíola, leptospirose, sarna e diarreias, juntas, teriam atormentado o cotidiano brasileiro nesse período. A questão era muito séria, ao ponto dos vereadores de Recife baixarem um decreto em 1831, e nele dizia que o "arremesso das 'águas servidas' só poderia acontecer à noite, mas não sem antes a pessoa gritar por três vezes seguidas: água vai!".
A preocupação dos políticos pernambucanos realmente tinha fundamento, porque antes desta norma, a população local seguia os hábitos e os costumes do restante do império, ou seja, excrementos e lixo de todo tipo eram arremessados, sobretudo pelas janelas. Assim se encontrava o cotidiano das principais cidades do Brasil nas primeiras décadas do século 19, ruas, becos, córregos e rios entupidos de sujeira. Era preciso que algo fosse feito para modificar esse paradigma. Nesse sentido, surgiram "os tigres". Segundo Fheuiss, foram "estes cativos os encarregados de despachar para bem longe os dejetos domésticos acumulados durante o dia". A higiene agora ganhava um forte aliado.
Responsáveis pelo transporte do lixo produzido nas grandes cidades, os escravos utilizavam caixas, baldes, sacos, barricas e outros vasilhames para conduzi-los a locais transformados em verdadeiros aterros sanitários.
Em Laguna, por exemplo, esse local denominava-se Rua da Praia, e "à noite, após o fechamento das casas comerciais varejistas, todos evitavam passar por lá, porque era a hora do despejo de materiais fecais, conduzidos em barris e latas por escravos e criados". O elevado número de escravos exercendo tal função fazia com que a concorrência entre ambos barateasse o frete. Para o historiador Thiago Silva de Oliveira, no século 19, estes escravos receberam essa denominação "por ser comum o escorrimento das fezes pelas suas costas, como que formassem listras. Ao passarem, as pessoas se afastavam, tampavam os narizes, viravam os rostos, enquanto que os carregadores alertavam: 'abra o olho'!".
Embora Pedro II tenha assinado o contrato de implantação do saneamento sanitário no Brasil em 25 de abril de 1857, as atividades desenvolvidas "pelos tigres" ainda perduraram por muito tempo, isso graças à morosidade da empresa contratada para execução da obra.

Fontes utilizadas:
Oliveira, Thiago Silva da. Águas e tigres. Disponível em: Webartigos.com.
Ulysséa, Saul. A Laguna de 1880. Florianópolis: Imprensa Oficial, 1943.