Opinião
O planeta pede água, ou não
Manuela da Rocha Corrêa - Psicóloga - CRP 12/6791 - Membro da Ceres - Associação Criciumense de Apoio à Saúde Mental
Não vou dizer que nós estamos passando por momentos difíceis porque, na verdade, nós só estamos assistindo a muitas pessoas passarem por momentos bem difíceis. Coisas tão ruins vêm acontecendo devido às águas do verão, que até parecem não ser de verdade, parece sonho - ou pesadelo.
Quando este tipo de desastre acontece, as pessoas que só observam ficam se perguntando quão grande será o trauma de quem passou por tudo aquilo. E como vão fazer pra viver com isso ou como vão se curar. Posso dizer que o trauma nem sempre acontece, mas aquelas sensações de que 'não aconteceu', ou de 'fazer promessas gigantescas caso fulano fique bem', ou ainda achar que tudo foi um grande engano e que 'amanhã tudo voltará ao normal', tais sensações e pensamentos são muito frequentes.
Na verdade, eu estou descrevendo as fases do luto. Sim, luto. Quem perde algo de que gosta muito passa pelo luto também. Essas pessoas não perderam só a segurança do lar, perderam sua história, sua identidade. A vida de trabalho estava ali e a água levou, junto com todas as marcas de felicidade que foram deixadas no caminho. Desesperador. É normal causar luto, até esperado. O choque e a negação costumam ser os primeiros sentimentos a aflorarem. Antes da esperada aceitação, podem aparecer também a raiva e a barganha.
A maioria das pessoas consegue chegar na aceitação por si só, mas a ajuda externa é preciosa, pois, durante o processo de assimilar a perda, podem aparecer sentimentos como descrença e desespe-rança. As vítimas têm a sensação de que nunca mais vão conseguir se reerguer. No meio de todo este turbilhão de sentimentos, é difícil tomar a iniciativa de recomeçar, até porque é um caminho longo e as pessoas estão fragilizadas.
Não é só com alimentos e remédios que se ajuda estas pessoas. Se você não tem condições de disponibilizar tais doações, você tem os seus ouvidos para ouvir a dor destas pessoas e tem as suas palavras para consolar e dar um pouco de esperança a quem perdeu muito. Você pode também levar brinquedos paras as crianças e água potável pra fazer um café. Não são coisas essenciais, mas são coisas que eles tinham em suas casas, que trazem algum conforto e familiaridade. São pequenos gestos que ajudam a curar aquelas mentes tão machucadas e cansadas. Faça a sua parte, mesmo que seja pequena. Nós não queremos imaginar (mas devemos) que aquelas famílias poderiam ser as nossas.
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