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Opinião

quinta | 15/09/2011 06:00:00

Noventa anos do educador brasileiro Paulo Freire

| Professora Doutora Janine Moreira | PPGE (Programa de Pós-Graduação em Educação) da Unesc (jmo@unesc.net)

Paulo Freire é o educador brasileiro conhecido mundialmente, pelo que se convencionou chamar de método de alfabetização de adultos. Tendo vivido entre 1921 e 1997, iniciou seus trabalhos de alfabetização junto às camadas de trabalhadores do Nordeste brasileiro, região em que nasceu, na década de 1950. O Brasil vivia, na visão de Freire, um processo de construção de uma sociedade democrática. A alfabetização de adultos era necessária como instrumento de inserção crítica do sujeito na história, visando uma sociedade mais igualitária.
Mas, para isso, não poderia estar baseada em uma educação impositiva, mecânica, marcada pela transferência do saber do professor ao aluno - o que o educador chamou de "educação bancária", centrada nos "depósitos" de saber que o professor faz nos alunos -, mas uma alfabetização centrada na relação estabelecida entre sujeitos: educador e educando. Estes têm conhecimentos diferentes da realidade, mas essa diferença não deve caracterizar uma desigualdade entre estes dois sujeitos.
A essa educação, Freire nomeou de "problematizadora" ou "libertadora", pois a partir do contexto de vida dos educandos se refletiria o mundo vivido, no intento de transformá-lo, indo ao encontro da capacidade humana de criação, de reinvenção, negando a apatia, a acomodação. Freire, então, trabalhou para o estabelecimento de uma educação que pudesse romper com a "cultura do silêncio", com o "medo da liberdade", com a transformação de uma sociedade que mantinha estabelecidos oprimidos e opressores.
Quando se estabeleceu a ditadura militar, Freire foi preso por 70 dias, e se exilou com a família, tido como subversivo. Mais tarde, ele dizia concordar com esse termo, pois ser subversivo significava, naquele contexto, não aceitar as injustiças e querer intervir no mundo, então ele era subversivo.
Hoje, quase 30 anos após a abertura política, podemos pensar quem são os oprimidos e os opressores, se a "cultura do silêncio" foi rompida, se o "medo da liberdade" foi superado. E, para tanto, podemos pensar em que bases se situa a educação brasileira, se bancária ou problematizadora/libertadora. E quando se fala de educação, é necessário pensar na amplitude que esse termo possui, ou seja, não apenas nos processos formais, estabelecidos nas instituições educativas, mas informais, aqueles que ocorrem nas comunidades, nas unidades de saúde, nas instituições não propriamente educativas, no contexto rural e em tantos outros locais em que se busca, a partir da relação entre as pessoas, algum processo formador.
Quem são os oprimidos do Brasil atual? Quem são os opressores? Por que vemos, nas salas de aula universitárias, estudantes muito mais inquietos e curiosos no início dos seus cursos do que no final, quando estão prestes a sair para o mercado de trabalho? Qual será sua atuação enquanto profissionais? Por que vemos ainda "a cultura do silêncio" em tantos momentos da vida cotidiana, principalmente naqueles caracterizados por conflitos ou disputas? Será que ainda é presente o "medo da liberdade", aquele sentimento de temor frente à responsabilidade de intervir no mundo, de mudar o estabelecido, aquele temor que nos convida a optar pelas escolhas dos outros e não as próprias?
O Mestrado em Educação da Unesc lembra os 90 anos deste educador brasileiro, que se tornou universal, a serem comemorados na próxima segunda-feira, dia 19 de setembro. Paulo Freire é um dos teóricos estudados no mestrado, junto a tantos outros que nos ajudam a refletir e a construir uma educação voltada para a libertação dos homens, para a construção de um mundo mais justo, em que as pessoas possam pensar e atuar sem medo, e se sentir construtoras de si e do mundo.
E para quem desejar saber mais a respeito de Paulo Freire, no site www.paulofreire.org, encontram-se as obras do autor, disponíveis para o público.