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Opinião

quinta | 11/08/2011 06:00:00

Mundos - Coerção

| Rosemiro A. Sefstrom | professor e filósofo clínico - sulcatarinense@engeplus.com.br

No artigo anterior, algumas pessoas com as quais conversei apontaram que exagerei na quantidade de conteúdo em tão poucas palavras, linhas, parágrafos. Relendo com maior atenção, concordei e gostaria de retomar cada um dos mundos dos quais tratei no texto anterior com maiores detalhes. O primeiro mundo que retomarei é o mundo enquanto coerção. Vamos ver melhor cada uma destas palavras separadamente, e somente mais tarde juntaremos as duas para formar o mundo enquanto coerção. O parâmetro de explicação e exemplificação será o dicionário, uma vez que universalmente, pode ser aceito como correto o que nele está escrito, no que diz respeito ao significado das palavras em cada idioma.
Hoje, dia 4 de agosto de 2011 o dicionário Aurélio disponível online traz o significado da palavra "mundo" como : "Conjunto de tudo que existe. / Terra, lugar onde vive o homem". Lê-se que o mundo é o conjunto de tudo o que existe, mas existe para quem? Se considerarmos uma criança que nasceu em bom berço, se é que dá para dizer isto, e viajou muito, sendo que desde a sua infância passou anos conhecendo cada lugar, ela conheceu o mundo? Na outra ponta, consideremos uma criança que nasce numa realidade diferente, com pouco mais que nada, onde trabalhou desde cedo para se sustentar e conhece pouco mais que a cidade onde mora. Então, é possível dizer que o mundo da primeira criança é muito maior do que o mundo da segunda?, sendo que a primeira conheceu muito mais lugares que a segunda. Mas, como na Filosofia nem tudo aquilo que parece ser é, consideraremos a ideia de um filósofo alemão Arthur Schopenhauer que diz: "O mundo é a minha representação".
Com esta frase o filósofo diz que tanto a primeira, quanto a segunda criança conhecem o mundo da mesma maneira, pois a cada uma o mundo será diferente, nem melhor e nem pior, mas diferente. Em cada uma das crianças há um mundo enquanto representação, objetivo e real, ainda que não seja o mesmo, será real. Levando em conta esta consideração, pode-se dizer que o "mundo externo" é aquilo que cada um disser que é para ele. O primeiro menino do exemplo pode dizer que o mundo é um lugar feio, onde pessoas se matam, brigam por interesses, um lugar difícil de viver. Já o menino que não viajou, pode dizer que o mundo é um lugar bonito, onde Deus o colocou para fazer o bem às pessoas, onde ele pode crescer e ser feliz. Algum dos dois está errado? Não, apenas cada um tem uma representação diferente daquilo que chega até ele enquanto "realidade".
Nessa realidade cada um se coloca de forma diferente, sendo uma dessas maneiras o mundo enquanto coerção. A palavra coerção, ainda de acordo com o dicionário Aurélio Online significa: "Ato de coagir, repressão". Então o ato de ver o mundo enquanto coerção é a maneira que Jean-Jacques Rousseau via o mundo, como pode ser notado em suas palavras: "O homem nasce livre, e em toda parte é posto a ferros". Pessoas que veem o mundo como ele, olham para o mundo e representam para si próprias os limites. Um exemplo fiel ao que Rousseau diz, são aquelas pessoas que dizem: "Gostaria de ter mais paciência, mas as pessoas não me deixam em paz". Quem comanda o mundo dela não é ela mesma, ela deve procurar um lugar onde possa não ser incomodada, ou seja, se encaixar num lugar no mundo onde se sinta bem.
Pessoas que olham o mundo por este prisma não estão erradas, certas, são boas ou más, apenas têm esta maneira de representar o mundo. É evidente em suas palavras quando falam a respeito das coisas dimensionando quase sempre pela falta, tendo nele um elemento de coerção. Falta de dinheiro como justificativa para morarem onde moram, falta de tempo para cuidar dos filhos, falta de amor para continuar o casamento, falta... Muitas pessoas que tem essa representação de mundo vivem muito bem, não tem nada de errado nele, já se acostumaram. A elas, pela maneira como se estruturaram na vida, está tudo bem, boa parte delas já se conformou. O mundo enquanto coerção é o que faz da pessoa o que ela é.