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Opinião

quinta | 28/07/2011 06:00:00

Investigando um problema

| Rosemiro A. Sefstrom | professor e filósofo clínico - sulcatarinense@engeplus.com.br

Usualmente pessoas que procuram por ajuda de um terapeuta, apontam seus problemas e pedem uma solução. Em muitos casos, para não dizer em todos, a solução não é tão antibiótica quanto se imagina, principalmente, por causa da maneira como o problema ou questão se estruturou. Imagine que uma moça aos vinte e oito anos de idade procure por terapia por causa de dificuldades em estudar, ou seja, não consegue se concentrar para realizar suas avaliações. Teoricamente, é um problema muito simples, a falta de concentração dos alunos já foi estudada demoradamente por muitos autores. Várias causas e possíveis soluções já foram apontadas e muitas delas são largamente utilizadas, mas e se a falta de concentração não é em si mesmo um mal, mas um sintoma de coisas muito maiores?
Um problema na vida não é necessariamente, um problema, pode ser um sintoma de algo muito maior e mais grave. Na terapia, depois da queixa da pessoa, ou seja, após ouvir o que a trouxe até o consultório, o terapeuta não vai simplesmente trabalhar a questão. Não vai, não pode e nem deve, principalmente por não saber o que desencadeou aquele comportamento. Para saber como a pessoa chegou até ali, o filósofo clínico ouve a história da pessoa contada por ela mesma. Alguns dizem não lembrar ou não saber contar, mas cada um, do seu jeito, acaba contando sua história de vida ao terapeuta. Imagine que aquela menina com vinte e oito anos de idade, com dificuldades de concentração está assim porque está fazendo um curso que não quer fazer. Gostaria de fazer Administração, mas está cursando Odontologia: "Não é possível que uma menina com todas as condições para ser dentista, seja uma administradora", dizem os pais.
A ilustração está muito longe de refletir a realidade, principalmente, porque não temos dados mais aprofundados da história da menina. Imagine que algumas pessoas contem sua história em dez minutos. Poderia o terapeuta trabalhar com uma história de dez minutos? Poder até pode, mas não deve, pois uma história curta pode ser inventada, aumentada, distorcida e assim por diante. Então, depois de ouvir a história da pessoa o terapeuta divide-a em partes menores e depois em menores ainda, até ter uma história muito bem contada. Quando chegar neste ponto, o filósofo pode descobrir que a menina não consegue se concentrar porque está se sentindo gorda e está comendo pouco, quase nada, para emagrecer. Este é o fator que estava escondido por trás de uma primeira narrativa e ficaria oculta, caso não houvesse uma maior investigação na história da pessoa.
E agora, depois de descoberto, o que fazer com o que encontramos? Basta mostrar à pessoa que sua dificuldade de concentração está ligada a falta de alimentação? O interessante é que, para algumas pessoas sim, mas para outras por mais que saibam disso, continuarão comendo menos porque é muito mais importante estar magra do que formada na universidade. Nestes casos, a simples denúncia de nada adianta e seria puro chute indicar qualquer outro caminho para ajudar a pessoa. Mas como saber o caminho? Assim como descobrimos o problema, também na história de vida da pessoa descobriremos o caminho para ajudá-la a resolver a real questão. Ir direto ao problema, é um caminho muito mais efetivo para fazer a pessoa viver melhor.