Opinião
Explorando Mundos - Criação
| Rosemiro A. Sefstrom | professor e filósofo clínico - sulcatarinense@engeplus.com.br
Nos três artigos anteriores trabalhei acerca dos mundos. No primeiro, apresentei apenas uma visão geral de como cada um pode se posicionar em relação ao mundo. No segundo, o conceito de mundo como coerção foi trabalhado com maior profundidade. Assim também foi feito com o terceiro artigo, onde foi possível conhecer um pouco mais do mundo, enquanto representação. Nestes quatro artigos, alguns conceitos são fundamentais e devem ser repetidos. O primeiro é o conceito de Protágoras: para este filósofo, o homem é a medida de todas as coisas, ou seja, cada pessoa é a medida para si mesma. Para ilustrar, se está frio hoje, está para mim e só para mim. Mesmo que o outro diga que está frio em concordância comigo, a quantificação depende dele. Sendo assim, você não pode se considerar a medida para a melhor comida, melhor vinho, você não é o veículo de medida das coisas da vida para o outro.
Outro filósofo que se faz necessário relembrar é Schopenhauer: este trabalha o mundo como vontade e representação. Levando em conta, apenas a questão da representação, ao menos neste texto, ele diz que cada um de nós, quando olha para o mundo, o vê de forma única e exclusiva. Isso quer dizer que, quando você abre os olhos e diz: "Este é um lindo dia!" Este realmente, será um lindo dia, mas apenas para você, ainda que outras pessoas concordem, elas estarão vendo outras coisas. Do ponto de vista de onde você olha o mundo, só existe pra você. Tanto um filósofo, quanto o outro estão trabalhando um conceito muito próprio da Filosofia Clínica, a singularidade, ou seja, a ideia e a prática metodológica que entende cada ser humano como único.
A maior parte das pessoas vive o mundo como coerção, algumas talvez, o vivam enquanto representação, ao passo que poucos compreendem o mundo enquanto criação. Grande parte das pessoas ainda não entendeu que os seus "semelhantes" são amplamente diferentes, tão diferentes até mesmo quando se fala em gêmeos. Mas, mesmo assim é interessante aprender que existem outras formas de vida, além desta que se vive atualmente. Dentre estas formas, o mundo enquanto criação se apresenta como uma forma não mais de ver ou entender, mas de fazer a própria realidade.
O que seria criar? Segundo o dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, criar significa: v.t. Tirar do nada, dar existência a. / Gerar, formar. / Sustentar, amamentar. O primeiro significado é interessante pois fala em tirar do nada, o que em nosso entendimento é praticamente, impossível. Então, pode-se aplicar este conceito somente a Deus, o qual tirou do nada a existência humana e terrena, segundo as crenças cristãs e de várias outras religiões. Aos seres humanos cabe gerar, formar, pois o ser humano coleta dados do seu redor que se combinarão e formarão o que ele chama de mundo ou realidade. Essas combinações dependem da vida, não somente da vida externa da pessoa no mundo, mas da interna, das vivências do mundo interior também.
Criar é gerar algo novo, uma novidade, como um empresário que deixa à mão de seu setor de criação um novo produto. Mas criar vai além de ter a ideia, coisa que muitos tem, é necessário também a sustentação, os predicativos para que se torne realidade. Vamos ver isso mais de perto. Pense em uma viagem que você sempre quis fazer, ir à França por exemplo. Muitas vezes, você já pensou nisto, mas de maneira superficial, apenas pensou: "Gostaria de ir à França visitar a Torre Eiffel". Mas não foi além desse pensamento vazio de propriedades. Como a própria definição do dicionário, criar é sustentar, amamentar. Então, retome esse sonho, agora com um pouco mais de propriedade, comece pela época do ano que gostaria de ir, faça o roteiro que gostaria de visitar e estude cada um dos lugares que gostaria de visitar. Pense em como seria realmente, estar de partida para a França e você estar em cada um dos lugares que gostaria de visitar.
As grandes criações foram para além das ideias quando se tornaram realidades, mas para isto seus inventores levaram a cabo o planejamento detalhado de cada uma das partes. Muito mais do que inspiração, o processo criativo, exige trabalho árduo, não só do corpo, mas também da mente. É preciso investir na ideia com tempo, dedicação, sustentando-a e amamentando-a com carinho para que se desenvolva e possa se tornar realidade.
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