Opinião
A vida na novela
| Maria Isabel Borba Alamini | Leitora
Quando acompanhamos uma novela nos surpreendemos com as situações apresentadas, como se elas fizessem parte de uma história irreal e fantasiosa. Ficamos irritados com os personagens, com o autor que parece subestimar nossa inteligência, nos incomodamos com os desfechos. Dizem, os defensores dos folhetins televisivos, que as novelas nada mais são do que reflexo do nosso cotidiano. Que tudo o que acontece, nos incontáveis capítulos, acontece no nosso dia a dia, ao nosso redor. Pode ser a sua vida, a vida de seu amigo, do seu vizinho ou de alguém que você conheça (ou não), e que nem se desconfia que ele passe por um destes dramas.
Não sou noveleira, mas preciso me render a alguns fatos. Revisando a situação sócio-político-cultural de nossa sociedade, vamos encontrar uma repetição de fatos tão cansativos, irritantes e dramáticos que mais parecem o enredo de uma história mal contada. História essa permeada com tragédias e traições, recheada de bandidos e mocinhos (poucos), cheia de mistérios, desencontros e incertezas. Mas, que servem, como toda história de brasileiro, de fonte para muitas piadas e diversão. Diversão suspeita, com certeza, pois, rir da própria desgraça não me parece uma atitude muito salutar e talvez, correndo o risco de não ser politicamente correta, nem muito inteligente.
Como exemplo, posso citar alguns velhos problemas, locais ou nacionais, que já nos acompanham há muito tempo, cujas soluções se arrastam interminavelmente como se fossem os conhecidos capítulos novelescos, que assistimos toda as noites, aboletados no sofá.
Duplicação da BR-101: sob a direção do Governo Federal, apresenta como protagonista um Estado da federação praticamente, abandonado por seus líderes políticos, tendo como figurantes uma população inteira, que acompanha e sofre diariamente, com desfechos brutais. Gênero: discutível. Nasce da tragédia, passeia pela comédia e termina num grande drama policial. Seria passada, possivelmente, no horário nobre.
Aeroporto Diomício Freitas: sem qualquer direção, relata o desprezo e a inércia com que são tratados os assuntos que interessam a uma região. Gênero: Monólogo, talvez? Como a grande maioria acredita, erradamente, que aeroporto é benefício para poucos, seria exibido num horário, historicamente de pouca audiência.
Plano Diretor: direção local e caseira. Gênero: teatro de sombras, arte milenar chinesa. Enredo com muito suspense e mistério. Início nebuloso e de difícil compreensão, sem que se tenha certeza de seu desfecho. Final imprevisível. Tirem as crianças da sala.
Claro que as grandes produções não param por aqui. Mas, seguindo o ritmo de novela, devem ser apresentadas homeopaticamente. Não percam, portanto, os próximos capítulos. Fiquem ligados. A gente se vê por aqui.






