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Reporter Cidadão

quarta | 02/11/2011 17:23:00

Textos: Clairton Rosado

A Nudez de Ney Matogrosso

A Nudez de Ney Matogrosso Ampliar Imagem

Talvez tenha causado estranheza a alguns quando em 2006 o cantor inglês Sting gravou “Songs From The Labyrinth”, disco dedicado à obra do compositor renascentista John Dowland (1563-1626). O fato de um músico ligado ao ambiente da música popular, realizar incursões por um repertório vinculado à especificidade das salas de concerto, pode mesmo soar estranho, porém a questão nos leva a refletir sobre os desafios a que este músico se lança, como também de sua capacidade em superá-los, visto que diferentes tipos de repertório exigem formas distintas de interpretação.

Em 1987, Ney Matogrosso já acumulava 14 discos em 14 anos de carreira, quando gravou “Melodia Sentimental” e outras duas canções da obra “A Floresta do Amazonas”, de Villa-Lobos. Esta incursão pelas sonoridades do mais conhecido dos nossos maestros revela o quanto pode ser inusitada e diversa a escolha do seu repertório, que até então já incluía compositores como Chico Buarque e Odair José, Tom Jobim e Belchior, Rita Lee, Milton Nascimento e Raul Seixas.

Percorrer repertórios tão diferentes exige de quem o faz a liberdade de absorvê-los, e a cumplicidade para ser absorvido por estes, numa entrega recíproca em que se desnudam tanto o cantor quanto as canções. A qualidade de um intérprete pode ser avaliada em sua capacidade de desaparecer frente a nossos olhos, de nos fazer esquecer que há alguém ali cantando, de transformar-se em simples instrumento ao que deve ser protagonista: as canções. Quando canta, não é Ney de Souza Pereira quem ouvimos, mas o outro Ney, o Matogrosso, e o personagem que sobe ao palco para nos apresentar os sentimentos e intenções existentes nas canções que interpreta. Ney Matogrosso põe-se nu, seja sob fortes maquiagens, figurinos exuberantes ou terno e gravata, esta ali, disposto a libertar as canções que ganham vida em sua voz.

Ney Matogrosso é um e é muitos, é dinâmico. Possui a força vista em “Inclassificáveis” de Arnaldo Antunes (Inclassificáveis/2008), a sutileza necessária a “Sem Você” de Tom Jobim (Cair da Tarde/1997) e a malícia presente em “Espinha de Bacalhau” de Severino Araújo e Fausto Nilo (Ney Matogrosso/1981). Em “Beijo Bandido”, Ney Matogrosso continua versátil. Sob um repertório costurado ao sabor de um romantismo sem melancolia, encara desafios a que poucos teriam coragem. Recria a si mesmo ao regravar “As Ilhas”, composição que o argentino Astor Piazzolla compôs especialmente para ele e que foi lançada num compacto, vendido acoplado ao seu primeiro disco solo “Água do Céu-Pássaro” de 1975. Canta “Fascinação” sem temer comparações com a gravação de Elis Regina, e se em “À Distancia”, Roberto e Erasmo tocam em lugares e momentos secretos do nosso íntimo, que muitas vezes preferimos deixar adormecidos, Ney Matogrosso dá vida a esses mesmos lugares e momentos, extraindo destes seu aspecto positivo, ou seja, o amor que neles existem.

Ney Matogrosso ama o que faz, e quem ama se despe, quem se despe se entrega, pois como diria o poeta Vinícius de Moraes: “ter medo de amar não faz ninguém feliz”.

Clairton Rosado
Mestre em Artes/Música - USP
Bacharel em Música/Composição - UFRGS