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Beto Soares

quarta | 31/03/2010

Crônica - O Vianinha

- Quem foi que disse que eu preciso de Viagra?, gritou Vianinha, sem se dar conta de que a farmácia estava cheia de gente.
Resultado: a farmácia inteira voltou-se para ver quem era o sujeito que havia dito, dito não, gritado que não precisava de Viagra.
O dono da voz era um sujeito baixinho, de aparentes cinquenta anos. Ao lado dele, estava a pessoa a quem, presumivelmente, ele dissera que não precisava de Viagra.
- Você sabe muito bem que eu não preciso de Viagra!, continuou o baixinho, no mesmo volume de voz, para que toda a farmácia ouvisse que ele, Vianinha, não precisava de Viagra nenhum.
- Vianinha, meu bem, você está chamando a atenção, disse a garota que o acompanhava.
Diga-se de passagem, uma garota que não ficava devendo nada às melhores capas da Playboy e que bem poderia passar por filha do Vianinha, tal a diferença de idade entre os dois.
- Tô nem aí! Tô nem aí!, falou o Vianinha.
Agora ele não poderia recuar. Seria uma confissão pública de que precisava de Viagra. Isto, nunca! Nunca!
- Você não vê que as pessoas estão olhando, meu bem?
- Quem é que tá olhando? Quem?, disse o Vianinha, falando cada vez mais alto e olhando para os outros clientes com ar de quem quer puxar briga.
- Pelo amor de Deus, Vianinha!
- Não quero nem saber! Falo do jeito que eu quiser!
- Fala baixo, Vianinha.
- A voz é minha, falo como bem entender! Quem não gostar que procure outra farmácia, disse o Vianinha, cada vez mais incomodado com aquela coisa de discutir sua virilidade em público.
Neste momento, ouviu-se uma voz lá do fundo da farmácia, vindo das costas do Vianinha:
- Leva o Viagra, Vianinha, leva!
- Quem foi que falou isto?, gritou Vianinha, voltando-se rapidamente para o lado de onde viera a voz. Quem foi?
- Calma, Vianinha, calma, disse a garota. Eu apenas disse que você poderia levar...
- Nem mais uma palavra! Nem mais uma palavra!, disse o Vianinha para ela.
- Tá bom, tá bom. Mas agora calma, meu bem. Tem gente olhando.
- Quem é que tá olhando?! Quem é que tá olhando?!, gritou Vianinha, olhando nos olhos de cada uma das pessoas que estavam por ali.
Ninguém olhava para ele. Mas, pelas suas costas, lá do fundo, veio uma outra voz:
- Se eu fosse você, levava o Viagra, Vianinha!
- Ah não! Agora não!
- Calma, Vianinha, calma. Desse jeito você vai ter um troço!
- Calma coisa nenhuma! Quem foi que falou?
Ninguém olhava para o Vianinha. Mas podia se ver aqui e ali um e outro cliente sorrindo.
- Você aí! Tá rindo do quê?
Ninguém falava, ninguém sequer olhava para o Vianinha.
- Vamos embora, meu bem, disse a garota, pegando-o pelo braço e ca- minhando em direção à porta.
- Eu não preciso de Viagra! Eu não preciso de Viagra!, gritava o Vianinha, enquanto a garota levava-o embora.
Ao chegar à porta, mais uma voz veio lá do fundo:
- Você esqueceu o Viagra, Vianinha!
- Ah não! Agora não!, gritou o Vianinha. Soltou-se da garota, voltou e começou a quebrar a farmácia inteira. Havia muita coisa em jogo! Muita coisa!

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