Gildo Volpato
Universidade e formação profissional: para além do mercado de trabalho
A formação profissional, seja em qualquer instituição ou nível de ensino, é uma prática específica que cumpre certas funções sociais relacionadas com a reprodução, legitimação ou mudança no sistema social, ao mesmo tempo em que celebra determinados valores, por vezes contraditórios, ligados quer ao mundo empresarial, do mercado, quer ao mundo cívico e da cidadania.
A universidade, desde sua constituição, como aponta Boaventura de Sousa Santos, tem pelo menos três grandes objetivos: a investigação, seu principal objetivo, porque a "verdade" só é acessível a quem a procura sistematicamente; a cultura, disponível para a educação do homem no seu todo e, por último, a verdade que deve ser preservada, por isso a universidade ensina, e mesmo o ensino voltado ao desenvolvimento de competências e habilidades profissionais deve ser orientado para a formação integral do sujeito.
No entanto, ao longo do tempo, houve mudanças em relação às expectativas da sociedade quanto ao papel da universidade e do perfil dos sujeitos que ela deveria formar. Essa expectativa, oriunda principalmente do sistema produtivo, para atender diretamente as demandas do mercado, nem sempre é vista e percebida pela universidade de forma positiva.
Há constantes conflitos e tensões principalmente em relação a duas posições binárias frente ao papel da universidade: formar os sujeitos para apenas responder positivamente ao mercado de trabalho ou formar cidadãos conscientes, críticos à lógica do mercado existente. Com base nestes pressupostos é que discordo de uma ideia reducionista, muitas vezes veiculada e difundida pelo senso comum de que o papel da universidade é preparar mão-de-obra para o mercado de trabalho.
São inegáveis os benefícios da formação profissional no desenvolvimento dos sujeitos e dos serviços necessários ao desenvolvimento da sociedade. De modo geral podemos dizer que a formação promove eficiência, aumenta a capacidade de saber, de informação, de expressão, de integração. A formação profissional promove cultural e socialmente os traba-lhadores, produz processos transformadores e mudanças organizacionais com efeitos apreciáveis na construção ou evolução das identidades coletivas.
Porém, também precisamos estar atentos aos perigos e contradições das exigências de formação, pois podem produzir excessos de trabalho concentrados num número reduzido de pessoas multiespecializadas. Podem conduzir a um pensamento e uma prática de reforço a uma tendência para selecionar os sobrequalificados em detrimento dos que não detêm uma "carteira de competências" devidamente recheada e atualizada. Podem atender a uma necessidade de aumentar o nível de formação não pelas necessidades dos sujeitos, mas simplesmente pelas necessidades impostas pelo mercado de acreditação para executar determinados serviços especializados.
A função da universidade na formação profissional não é somente formar para o mercado de trabalho, mas formar sujeitos para atuarem na sociedade como um todo. E a sociedade é também o mercado, mas é muito mais do que isso. São também as organizações sociais e comunitárias, os serviços públicos diversos, as organizações não governamentais, os profissionais autônomos e tantas outras atividades humanas e socioculturais. O papel da universidade também é preparar para o mercado de trabalho, mas muito mais do que isso é instrumentalizar os sujeitos para que compreendam os processos e os contextos em que o trabalho e eles próprios estão inseridos.
A função da formação é para preparar o sujeito para saber fazer, saber atuar do ponto de vista prático, mas isso é muito pouco, pois outras instituições podem fazer isso até melhor. O papel da universidade vai muito além, pois é preciso além do fazer, que a formação dê conta de propiciar que o sujeito compreenda profundamente as implicações sociopolíticas desse fazer, é torná-lo capaz de melhorar e até modificar a realidade desse fazer e de sua condição de trabalho. Cabe à universidade ensinar a compreender as múltiplas interfaces, os condicionantes, as contradições, os conflitos que condicionam o trabalho de todos os profissionais que necessitam de formação em nível superior para poderem exercer as profissões regulamentadas na sociedade, e isso certamente representa muito mais do que somente aprender a fazer.
Portanto, é preciso reconhecer que há um saber específico a cada profissão, há uma instrumentalização própria inerente ao trabalho de cada uma das profissões regulamentadas, e há uma atitude crítica e ética a elas subjacentes. Por isso faz-se necessária uma postura crítica diante da formação profissional. Não podemos de maneira ingênua pensar que nossa atua-ção e nossas escolhas em sala de aula, na universidade, não interferem no tipo de sujeito e de profissional que ajudamos a formar e, em certa medida, no tipo de relações sociais e de trabalho que ajudamos a construir.
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