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Gildo Volpato

quinta | 12/05/2011

Uma reflexão sobre o conteúdo e o saber do professor

Os saberes dos professores desenvolvem-se no âmbito de uma carreira, ao longo de um processo temporal de vida profissional. Quando se fala de tempo não se trata, simplesmente, de um tempo cronológico, mas o tempo de vida, de trabalho. O tempo pressupõe uma importante condição para se adquirir inúmeras experiências pessoais e profissionais.
Maurice Tardif sintetiza os saberes dos professores da Educação Básica como resultado de pelo menos cinco momentos, embora não se apresentem de forma estanque, nem linear, nem excludente. Para ele, os saberes dos professores são: saberes pessoais; da formação escolar desde a infância; da formação profissional para o magistério; dos programas e livros didáticos e da própria experiência na profissão.
Os saberes da formação profissional, disciplinares e curriculares que os professores possuem e transmitem não são os saberes dos professores. Ou seja, os conteúdos são trabalhados em sala de aula pelos professores, mas não foram produzidos por eles.
Historicamente, houve uma separação entre dois fenômenos complementares que influenciaram na definição do papel da escola e na atuação do professor. De um lado caminhou o processo de produção dos conhecimentos que se tornaram conteúdos disciplinares, tendo como legítimos atores nesse processo, os pesquisadores, as comunidades científicas das universidades e centros de pesquisa; de outro caminharam os processos sociais de formação e de transmissão dos conhecimentos e este trabalho coube aos educadores, aos professores. Ou seja, mesmo não sendo produzidos pelos professores, a eles coube o legado de socializar os conhecimentos produzidos por outros agentes, em inúmeras salas de aula e nos diversos níveis de ensino.
Portanto, se considerarmos que os professores têm que socializar uma gama de conteúdos que não foram produzidos e escolhidos por eles, há uma relação de exterioridade histórica e de origem. Há um distanciamento social, institucional e epistemológico que os separa e os desapropria dos conhecimentos produzidos, controlados e legitimados pelos outros.
Em decorrência disso os professores tendem a supervalorizar os próprios saberes advindos da experiência. Para Maurice Tardif, os saberes da experiência consistem num conjunto de representações a partir das quais os professores interpretam, compreendem e orientam sua profissão e sua prática cotidiana em todas as suas dimensões. Fornecem certezas relativas a seu contexto de trabalho na escola. A chamada cultura docente em ação.
Para que o saber dos professores não se resuma em repetição descontextualizada de conteúdos se faz necessário que ele estude profundamente a história, a origem dos conteúdos que ele trabalha. Que procure compreender em que momentos históricos eles foram definidos como conteúdos curriculares e como foi este processo, uma vez que se constituíram em relações de poder e foram resultados de forças concorrenciais.
Da mesma forma é fundamental a compreensão de que os saberes dos professores possuem múltiplas fontes e se constituem numa dimensão temporal. Somente desta forma para o próprio professor ficará explícito que a docência é um processo que se constrói, permanentemente, aliando o espaço da prática com o da reflexão teorizada. Se o exercício da docência nunca é estático e permanente, é sempre processo, é esse movimento que se deve buscar compreender.