Gildo Volpato
Reflexões sobre a formação
Formar-se significa adquirir certa forma. Uma forma para atuar, para refletir e aperfeiçoar essa forma. A formação é diferente de ensino e aprendizagem. O ensino e o aprendizado fazem parte da formação, são o suporte da formação, mas não a formação em si. A formação, a dinâmica de formação, a dinâmica de busca da melhor forma, é um desenvolvimento da pessoa. Por isso é importante ver a formação como a dinâmica de um desenvolvimento pessoal.
Gilles Ferry, tomando por base o autor francês Kaäes, tem demonstrado muito bem certas fantasias existentes a respeito da formação de professores. Estas fantasias, geralmente, se situam entre dois extremos: uma do tipo Pigmaleão - que se refere ao tipo de professor formador, que procura atuar como escultor, aquele que faz de tudo para criar um outro a sua imagem, o modela da sua forma. Um modelador que encontra seu prazer quando realizou o que tinha em sua imaginação e que, como um deus, criou um ser a sua semelhança.
No entanto, quando começamos a criticar esta maneira de representar o ato de formação, podemos cair em outro extremo e pensar que os indivíduos é que se formam por seus próprios meios, através de seus próprios recursos. Os tratamos então como outro personagem mítico: a fênix, um pássaro da mitologia grega que quando morria entrava em autocombustão e, passado algum tempo, renascia das próprias cinzas.
Nenhuma destas duas fantasias cor- responde à dinâmica formativa. Por um lado, o sujeito se forma a si mesmo, porém se forma somente por mediação. As mediações são variadas, diversas. Os formadores são mediadores humanos, são também as leituras, as circunstâncias, os acidentes da vida, a relação com os outros. Por ser um processo de desenvolvimento pessoal, é sempre complexo, heterogêneo e, ao mesmo tempo, contextual, portanto, jamais pode ser reduzido a nenhuma das duas fantasias.
Os ensinamentos de Ferry servem para nos deixar alerta, pois se trata de uma tendência humana acharmos que só serão bons professores, bons educadores, aqueles que fazem o que fazemos, pensam como nós pensamos, agem como nós agimos. Embora seja fundamental a mediação de diversas ordens, uma parte essencial desta formação depende de nossa intuição, de nossa afinidade com posturas pessoais, de nossa identidade.
José Contreras Domingos afirma que custou muito a entender que o rastro principal que tinha a seguir era o dele mesmo e, paradoxalmente, diz que o encontra quando segue alguém, um mestre que lhe indica um caminho: aquele que consiste precisamente em atuar dando sentido às coisas; um atuar que é, pois, sempre em primeira pessoa, e um dar sentido que é sempre uma construção também própria, também em primeira pessoa. Essa busca de sentido, diz o autor, está sempre vinculada ao saber da experiência e sempre há alguém que sustenta esse saber, alguém que o vive e o comunica, como quando aprendemos a falar. Por isso, a relação que nos dá liberdade é sempre uma relação de autoridade: é ela que nos autoriza a empreender nossos próprios voos, porém não nos deixa desnudos; ao contrário, nos dá asas.
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