Rubens Salfer
Prece de um juiz
Primeiramente, agradeço ao convite formulado pelo Sr. Edson da Soler, Diretor do diário A Tribuna, para escrever uma coluna semanal tratando dos direitos e deveres dos cidadãos, e como peça inaugural lembro da "Prece de Um Juiz", criado pelo magistrado inativo João Alfredo Medeiros Vieira.
Senhor!
Eu sou o único ser na terra a quem Tu deste uma parcela de Tua Onipotência: o poder de condenar ou absolver meus semelhantes.
Diante de mim as pessoas se inclinam; à minha voz acorrem, à minha palavra obedecem, ao meu mandado se entregam, ao meu gesto se unem, ou se separam, ou se despojam. Ao meu aceno as portas das prisões se fecham às costas do condenado ou se lhe abrem, um dia, para a liberdade. O meu veredicto pode transformar a pobreza em abastança e a riqueza em miséria. Da minha decisão depende o destino de muitas vidas. Sábios e ignorantes, ricos e pobres, homens e mulheres, os nascituros, as crianças, os jovens, os loucos e os moribundos, todos estão sujeitos, desde o nascimento até a morte, à LEI que eu represento e à JUSTIÇA que eu simbolizo. Quão pesado e terrível é o fardo que puseste nos meus ombros.
Ajuda-me, Senhor! Faze com que eu seja digno desta excelsa missão. Que não me seduza a vaidade do cargo, não me invada o orgulho, não me atraia a tentação do mal, não me fascinem as honrarias, não me exalcem as glórias vãs. Unge as minhas mãos, cinge a minha fronte, bafeja o meu espírito. Faze da minha toga um manto incorruptível e da minha pena não o estilete que fere, mas a seta que assinala a trajetória da Lei, no caminho da Justiça.
Ajuda-me, Senhor, a ser justo e firme, honesto e puro, comedido e magnânimo, sereno e humilde. Que eu seja implacável com o erro, mas compre- ensivo com os que erraram; amigo da verdade e guia dos que a procuram; aplicador da Lei, mas, antes de tudo, cumpridor da mesma. Não permitas, jamais, que eu lave as mãos como Pilatos diante do inocente, nem atire como Heródes, sobre os ombros do oprimido, a túnica do opróbrio. Que eu não tema César e nem por temor dele pergunte ao poviléu se ele prefere Barrabás ou Jesus. Que o meu veredicto seja a flor que nasce no azedume do coração humano; que possa levar consolo ao atribulado e alento ao perseguido; que possa enxugar as lágrimas da viúva e o pranto dos órfãos.
Ajuda-me, Senhor, quando as minhas horas se povoarem de sombras; quando as urzes e os cardos do caminho me ferirem os pés; quando for grande a maldade dos homens; quando as labaredas do ódio crepitarem e os punhos se erguerem; quando o maquiavelismo e a solércia se insinuarem nos caminhos do Bem e inver- terem as regras da Razão; quando o tentador ofuscar a minha mente e perturbar os meus sentidos.
Quando me atormentar a dúvida, ilumina o meu espírito, quando eu vacilar, alenta a minha alma, quando eu esmorecer, conforta-me, quando eu tropeçar, ampara-me. E quando um dia eu sucumbir, e então como réu comparecer à Tua augusta presença para o eterno Juízo, olha compassivo para mim. Dita Senhor a Tua sentença. Julga-me como Deus que eu julguei como homem.
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