Beto Colombo
O outro
Querido leitor, que você esteja bem. Hoje vamos refletir sobre “o outro”.
De todos os animais, talvez o ser humano seja aquele que mais necessita do outro, a começar pelo tempo em que começa a ter decisões próprias, autonomia de ideias e financeira. Lembro-me de quando estava no caminho de Santiago e filosofava despreocupadamente quando tive um insight: "O eu somos nós". E aqui vale refletir, pois jamais chegaremos ao "nós" se não reconhecermos que fora de mim há o outro e que este outro também sou eu.
Por isso, hoje desejo falar com você sobre este encontro com “o outro”.
Para mim, falar do outro é falar de Emmanuel Lévinas, filósofo francês nascido numa família judaica na Lituânia. Apesar de ser exilado e aprisionado pelos nazistas, forçado a viver no cativeiro, onde escreveu e desenvolveu boa parte de sua filosofia, ele nunca se referiu aos nazistas como monstros. "Não posso reduzir uma pessoa a um ato", explica sabiamente sua posição, e completa: "Se eu chamar aquele de monstro, eu estarei me tornando o monstro", referindo-se a um soldado que momentos antes havia fuzilado uma criança judia.
A filosofia de Lévinas nos leva ao encontro do outro e a Deus. "Só podemos conversar com Deus quando reconhecemos o outro". A religião é a manifestação mais sublime da acolhida do outro. Talvez "Deus seja o outro". Num jogo de palavras, somos uma aglomeração de "Eu", portanto, muitos de nós somos um grupo de Eu, de Eus, de Deus.
O "outro" como pessoa é terra santa, sacralidade absoluta, solo sagrado. Ao aproximarmo-nos dele, é necessário que tiremos nossas sandálias. É necessário despojar-se de si mesmo e diluir-se no outro com ouvido atento sem oferecer julgamento. É fazer-se responsável pela sua existência.
Entre o eu e o outro existe um infinito. Dizer que conhecemos o outro é negar este infinito sagrado. O que eu conheço da pessoa que se encontra na minha frente? O outro é como um iceberg, nós vemos apenas uma fração que, às vezes, o outro se permite mostrar, a grande parte está escondida. Não respeitar esse infinito que existe entre o eu e o outro é negar a existência de Deus no outro, é negar o outro como sagrado, o outro como religião.
Para Lévinas, Deus é manifestação do sagrado a partir da relação com o outro. Quando estou diante de uma pessoa só, sei que nada sei a respeito daquele solo sagrado e a sujeira incrustada nas minhas sandálias deve ficar lá fora, distante.
A regilião judaico-cristã diz: "não matarás". Não matarás, no dizer de Lévinas, é que não devemos reduzir o outro a uma ideia, a um ato. Matar é o mesmo que reduzir as virtudes, a história e todo acervo do outro apenas a uma atitude, a um erro. O outro é muito mais que isso.
Algumas vezes esquecemos do outro como sagrado e, no primeiro deslize, no primeiro erro, reduzimos o outro ao erro. No momento em que reduzimos o outro ao erro cometido, então estamos nos afastando do sagrado. O outro é muito mais do que aquele ato cometido por ele, mesmo sendo um ato monstruoso.
Para Lévinas, a religião verdadeira é a manifestação do sublime na acolhida do outro. Quando acolhemos o outro, logo nos aproximamos do sagrado.
Isso é assim para Lévinas e para mim hoje, fonte da qual eu também bebo. E para você, o outro o que é?






