Gildo Volpato
As múltiplas dimensões da formação universitária
Temos uma grande preocupação com a qualidade da formação acadêmica na universidade. E uma formação de qualidade passa pela dimensão técnica, sem dúvida alguma, pois precisamos garantir que todos os graduados se apropriem de conhecimentos e desenvolvam habilidades que os tornem aptos ao exercício da profissão que escolheram seguir. Mas de nada adianta formar apenas tecnicamente. Não adianta formar seres humanos hipercapazes de resolver problemas técnicos de sua área, mas que não tenham atitudes éticas, de humildade, de solidariedade, de amizade. Não adianta ser excelente técnico, e sair por aí agredindo gente, usando drogas, maltratando pessoas e animais, destruindo a natureza. Um dos grandes desafios da atualidade, em qualquer área de conhecimento, seja nas humanas e so-ciais, engenharias e tecnologias, ciências sociais aplicadas, saúde, etc, é contribuir com a formação de cidadãos socialmente responsáveis, ecologicamente conscientes, pessoas solidárias, cooperativas e éticas.
Humanos é o que somos, e as organizações, estruturas e equipamentos são apenas meios a serviço do homem e devem estar dispostos unicamente em razão da qualidade de vida das pessoas. Como diz Leonardo Boff, "só nós humanos podemos sentar à mesa com o amigo frustrado, colocar-lhe a mão no ombro e trazer-lhe consolação e esperança. Nenhuma máquina, nenhum computador (nem o mais inteligente) pode fazer isso. Eles não estendem o braço e nos tocam carinhosamente, nem choram com nossos infortúnios. O ser humano sim, porque ele tem um coração que sente a chaga do coração do outro e sabe compadecer-se dele".
Até mesmo pensadores de áreas eminentemente técnicas vêm defendendo essa necessidade na sociedade atual. Não é por acaso que Ludwig von Mises deixou claro que "a economia não lida com coisas e objetos materiais tangíveis, trata dos homens, suas ações e propósitos".
O próprio saudoso papa João Paulo II sentenciou: "A economia só será viável se for humana, para o homem e pelo homem".
James Hunter defendeu a tese de que todos os profissionais devem ter caráter, uma base espiritual muito forte e a cons-ciência de que liderança não é poder, e sim autoridade, conquistada com amor, dedicação e respeito pelas pessoas. Ele também nos ensina que qualquer que seja o produto ou serviço que uma empresa forneça, ela opera no ramo do relacionamento. Antes de a empresa existir para dar lucro, ela existe para atender uma necessidade humana. O lucro é um componente essencial de uma empresa saudável, mas não é por isso que ela existe.
No mínimo estes autores nos fazem refletir e acordar do frenesi fanático em que muitas vezes nos encontramos, do trabalho e do lucro a qualquer custo com a finalidade de acumular bens sem limites, numa insa-tisfação doentia, que destrói a saúde, a natureza e somente aumenta a desigualdade social, a fome e a miséria.
Devemos ouvir mais atentamente Leonardo Boff quando afirma: "Só o resgate do cuidado pode nos salvar. O cuidado não se opõe ao trabalho, mas faz com que ele sirva à vida, à produção da felicidade e à instauração da convivência. O cuidado ajuda a encontrar a justa medida entre o esforço para garantirmos o bem viver de todos e o tempo para estarmos juntos e ce-lebrarmos a gratuidade da vida e a beleza da criação".
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