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Ceres

quarta | 27/10/2010

Vamos fugir?

| Angelita Zamberlan Nedel | Psicóloga CRP 12/07591 - Membro voluntária da Ceres - Associação Criciumense de Apoio à Saúde Mental. Site: www.cerescriciuma.org.br

"Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
(...)
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
- Lá sou amigo do rei -
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada."
(Vou-me embora pra Pasárgada, Manuel Bandeira)

Quem nunca pensou em fugir? Fugir dos problemas, de uma situação constrangedora, do mundo, da realidade, da vida que se leva. Vários são os convites para fugirmos da realidade, dos problemas do dia-a-dia, sejam em músicas ("Vamos fugir deste lugar, baby, vamos fugir, pra onde quer que você vá, que você me carregue" - Gilberto Gil), em poemas (como o da epígrafe deste texto), com conotação amorosa, idealista, não importa. No contato com o ser humano, nas relações humanas, vemos que estas "fugas" acontecem de diversas formas.
Um primeiro modo de fugir da realidade é a alienação. Prefiro não saber que as desgraças existem, prefiro viver alheio, finjo que a maldade, as coisas ruins, a perversidade não existem, e, deste modo, não me afetam, não me incomodam. É como diz o ditado, "Santa ignorância!". Mas, como se pode perceber, isso é falso, pois isso não deixa de existir conforme a minha vontade; a maldade, as coisas ruins continuam existindo, quer se queira, quer não. Muitas vezes optamos pela "ignorância" pois o conhecimento traz consigo a responsabilidade por aquele fato ou objeto; tornamo-nos cúmplices, e, desta forma, entramos em contato com nossa impotência, nossa fragilidade. Daí decorre nosso incômodo. Em determinada fase da vida, na infância, a ingenuidade, uma certa dose de ignorância e alienação é necessária para o desenvolvimento, já que seria de tamanha crueldade expor uma criança a todas as perversidades do mundo. Durante a infância, cabe, aos adultos cuidadores, a responsabilidade por protegerem as crianças e lidarem com os problemas.
Como seria viver no mundo da fantasia? Viver no mundo de Alice ... no país das maravilhas? Aceitar os convites que nos são feitos (pelas músicas, poemas)? Em muitos casos, no entanto, esta fuga não é uma escolha, ou melhor, não se dá de forma consciente.
Uma outra forma de fuga é a negação, um mecanismo de defesa utilizado pela maioria de nós, ditos "normais". Quando a verdade é muito dura, doída, eu nego. Quando uma pessoa muito querida e próxima morre, eu nego - não quero acreditar que isso seja verdade! A negação é considerada a primeira fase do processo de elaboração do luto. Mas isto não pode durar para sempre, e, se tudo correr bem, esta fase será sucedida de outras, até a aceitação do fato.
Algumas pessoas buscam refúgio nas drogas, para ficar alegres, dinâmicas, eufóricas, dispostas, tranquilas, ter certas sensações, esquecer das aflições da vida.
Quem nunca ouviu a frase "Os neuróticos constroem castelos no ar; os psicóticos vivem neles"? Na psicose, comumente chamada de loucura, os sintomas mais característicos (delírios e alucinações) revelam a dificuldade de o doente mental lidar com a realidade. Nos delírios, configura-se a alteração do conteúdo do pensamento; a realidade é interpretada de uma maneira equivocada (exemplos: acredita-se ser capaz de voar; diante de alguns indícios, chego à conclusão de que estão fazendo um complô contra mim, estão me perseguindo; acredito ser Jesus Cristo). Nas alucinações, ocorre a alteração na sensopercepção (ouvem-se vozes, veem-se coisas que não existem, que não estão acontecendo naquele momento).
Além das tentativas de fugas, uma outra forma de lidar com os problemas sem enfrentá-los é tentar bani-los, fazer com que desapareçam. Às vezes, dá vontade de tirar de perto tudo o que nos atrapalha - seja aquele colega chato de trabalho, um vizinho rabugento, um relógio e seu tic tac irritante, um transeunte desconhecido e seu olhar penetrante. É, dá vontade, mas existem coisas que fogem de nosso alcance, que não podemos mudar. Mas é importante perceber que talvez não dê para mudar as coisas, mas dá pra mudar a gente. Chega um momento em que nos damos conta de que os problemas não vão sumir, feito mágica, e que não vamos conseguir fugir. O jeito é encará-los, enfrentá-los. Buscando a mudança interna, tentando nos melhorar, modificar a nos mesmos, provocamos mudanças na realidade externa também. Por meio do exercício da paciência, da tolerância à frustração, podemos nos tornar capazes de "suportar" a realidade e tirar proveito dela. E, oxalá, tornarmo-nos melhores seres humanos, ensinando este sábio aprendizado aos outros.