Beto Colombo
Abacateiro
Querido leitor, hoje vamos falar sobre uma fruta: cadê o abacate?
Não me sai da cabeça as brincadeiras e estripulias que eu fazia com meus irmãos e amigos na infância e na adolescência. E o mais interessante é que brincávamos livremente descalços em cima de terra e pirita, mas geralmente embaixo de uma árvore frutífera: o abacateiro. Incrível como sempre tinha um pé para subir, para se embalançar e até para espremer no garfo com açúcar e saborear.
Lembro que, naquela época, comia-se abacate diária e abundantemente e de diversas formas: com pão, no café da manhã, creme de abacate, suco de abacate, picolé de abacate, vitamina de abacate. Esta, a vitamina, vim conhecer mais tarde quando uma vizinha comprou o primeiro liquidificador do bairro.
O abacate era como uma erva daninha, dava em todos os lugares. Quem, nos anos 70, não tomou uma vitamina de abacate e comeu pastel de carne nas saudosas portinhas de vitaminas na João Zanette? Que saudade do abacate...
Então, falamos tanto do abacate, ele está tanto em nossas memórias que cabe uma pergunta: cadê o abacate? Eles existiam tão abundantemente que é impossível aceitar que eles são frutas raras para nós. Já conheci criança que achava que abacate dava em arbustos tipo amora e outras que confundiam o pé de abacate com pé de abacaxi. Lembro-me de que, quando cheguei ao mundo, há 48 anos, não encontrei um pé de abacate, de tantos que existiam, ele me encontrou.
Quase não existem mais pés de abacate nos quintais e pomares das residências. É difícil encontrar abacate nas feiras e, muito menos, nas seções de frutas e verduras dos supermercados. Por que será que ocorreu esse fenômeno?
Uma explicação mais simples é a obtida a partir da minha experiência. Antes, as famílias eram numerosas; oito, dez, doze e até mais filhos. Se um abacate caísse na cabeça de um deles, não faltariam filhos para ajudar o irmão a limpar o quintal. Hoje, as famílias têm apenas um, dois, no máximo três filhos. Perigo... Sendo assim, corta-se o abacateiro.
Outro fator é que os abacateiros são árvores de copa larga, que ocupam muito espaço, e os lotes são cada vez menores. E então... Corta-se o abacateiro ou nem se deixa ele crescer.
No outono, o abacateiro solta folhas grandes e em muita quantidade, e ninguém mais tem tempo para limpar o terreno. Sem falar nos vizinhos estressados, que reclamam da sujeira, da calha entupida e dos frutos que caem gratuitamente na sua grama... Sobrou para quem? Corta-se o abacateiro.
A moda hoje é ter um corpo sarado. O abacate é calórico. Corta-se o abacate das dietas e o abacateiro dos quintais. Os fi-lhos casam e precisam morar. Geralmente, faz-se uma meia- água nos fundos do lote. Exatamente onde? No lugar do abacateiro.
Bem! Por que o abacate desapareceu? É o homem interferindo na natureza e na própria vida. Ou seria o contrário? O homem evoluiu, as pessoas transformaram-se... Muda-se a sociedade, mudam-se os hábitos, cortam-se abacateiros. Mas não podemos nos esquecer de que os cães ladram, a caravana passa e muitos continuam sentados à sombra dos velhos abacateiros.
E a banana-maçã? Bem, essa é uma outra história.
É assim como o mundo me parece hoje. E você tem ou conhece alguém que tem um pé de abacate perto de casa?






