Ceres
A mentira contada num divã
A mentira contada num divã
Que as pessoas mentem não é novidade. Claro que muitas não admitem, outras dizem que uma mentirinha não faz mal para ninguém. Porém, o objetivo deste texto não é para julgar, nem afirmar que todas as pessoas mentem, mas sim escrever sobre como lidar com a mentira nos consultórios psicológicos e psicanalíticos.
O que interessa é: se as pessoas mentem no seu dia a dia, será que isso também é comum nos consultórios psicológicos e psicanalíticos? Muitos psicólogos têm por hábito pedir a seus pacientes que falem apenas a verdade num processo de psicoterapia, porque se vier a mentir estarão enganando apenas a si mesmos e assim ficaria mais difícil e demorado obter melhoras no tratamento.
Já a psicanálise tem outra forma de lidar com a mentira. Para os psicanalistas, quando um paciente mente, ele, na verdade, não mente, mas sim fala sem saber sobre a sua fantasia inconsciente. Por isso, mesmo que seja uma mentira, não deixa de ser sem importância, pois essa mentira pode revelar algo sobre o sujeito, que nem ele mesmo sabe. Isso não significa que sempre que uma pessoa mente, ela está falando algo que seja verdade. Isso só vale dentro de um processo de análise, fora dele a mentira terá outro significado.
Quando o paciente relata algo, não importa se o fato aconteceu realmente, ou se aconteceu da forma que ele conta o que importa é aquilo que a pessoa assimilou daquele fato. Importante é aquilo que se fala, pois se o paciente fala sobre qualquer assunto que seja, é porque de alguma forma isso afetou a sua vida, causando talvez um sofrimento e/ou despertando um desejo. Nada do que se diga em análise é sem importância e sempre que há fala, há desejo.
Nada passa despercebido por uma escuta psicanalítica. O sujeito vem para uma análise pensando em falar sobre uma coisa, mas quando se dá conta está falando de outro assunto. Isso porque o inconsciente, que se manifesta na fala, atravessa o próprio discurso do sujeito.
O que se fala é mais significativo do que saber se essa fala é verdade ou mentira, e uma mentira em análise é sempre significativa uma vez que releva uma fantasia inconsciente.
Os psicanalistas não são mágicos e não tem como saber se o paciente está falando a verdade ou não e isso também não importa, já que em uma análise toda mentira ganha um lugar de verdade sobre o sujeito que mente.
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