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Rubens Salfer

quarta | 03/11/2010

A águia de Haia e a droga - II

Esse mal que muitas vezes não se separa do lupanar senão pelo tabique divisório entre a sala e a alcova; essa fatalidade que rouba ao estudo tantos talentos, à indústria tantas forças, à probidade tantos caracteres, ao dever doméstico tantas virtudes, à pátria tantos heroísmos, reina sob a sua manifestação completa em recônditos onde a palavra se abastarda no calão, onde a personalidade humana se despe do seu pudor, onde a embriaguez da extravagância delira cínica e obscenamente, onde os maridos blasfemam pragas improferíveis contra a sua honra conjugal, onde, em uma comunhão odiosa, se contraem amizades inverossímeis, onde o menos que se gasta é o equilíbrio da alma, o menos que se arruína é o ideal, o menos que se dissipa é o tempo, estofo precioso de todas as obras primas de todas as utilidades sólidas, de todas as grandes ações.
Inumerável é o número de criaturas que o desejo, o exemplo, o instinto, o hábito, o fado, a miséria, levam a passar por esses latíbulos, cuja clientela vai periodicamente fazer-se apodrecer ali por gozo, por necessidade, por avidez e, na corrupção de cujos mistérios cada iniciado se afaz a ir deixando aos poucos a energia, a fé, o juízo, a nobreza, a honra, a temperança, a caridade, a flor de todos os afetos, cujo perfume embalsama e preserva o caráter.
Uma inexorável maldição lhes mina a atividade, definhando-lhes os recursos para os deveres mais sagrados. Tudo em torno deles acusa a esterilidade das coisas: o traje é descuidado, a casa nua, o pão raro, servil a condição da esposa, a instrução dos filhos grosseira, as dívidas a monte, frequentes os desaires, as privações infinitas, o cálice da vida azedo, odioso, incomportável. Mas, se pudésseis contar as horas e as somas continuamente absorvidas pela madraçaria viciosa dos lânguidos e dissolutos áulicos dessas colônias de infelizes, verificaríeis que esses prejuízos representam verdadeiras riquezas, opulências incalculáveis, que a Providência e o trabalho teriam multiplicado, mas as dissipações criminosas as extraviam e devoram.
Aqueles que, por uma reação do horror no fundo da consciência, logram salvar-se em tempo desses tremedais, poderiam escrever a história da natureza humana vista sob aspectos inomináveis. Outros, porém, presas da lúbrica vasa que nunca mais os isenta, rolam e imergem nela de decadência em decadência, cada vez mais saturados, cada vez mais infelizes, cada vez mais eclipsados na desdita e no infortúnio, até que a piedade infinita do ocaso de todas as coisas lhes reco-lha ao seio do eterno esquecimento os restos inúteis de um destino sem epitáfio.
Eis a droga, a grande putrefatora. Diátese cancerosa das raças ane-mizadas pela sensualidade. Ela entorpece, caleja, entibia e desviriliza os povos, nas fibras de cujo organismo insinuou o seu germe proliferante e inextirpável.
Os desvarios do encilhamento dão e passam rápidos como os torvelinhos. São irregularidades violentas das épocas de prosperidade e esperança. Só a droga não conhece a complacência com a mesma continuidade com que devora as noites do homem ocupado e os dias do ocioso, os milhões do opulento e as migalhas do operário, tripudia uniformemente sobre as sociedades nas quadras de fecundidade e de penúria, de abastança e de fome, de alegria e de luto. A droga é a lazeira do vivo e o abjeto verme do cadáver.